• Onde você tá?

  • Na Saraiva, embaixo do IBMEC.

  • Com quem?

  • Ana, Flavia e Joana.

Ao desligar o telefone, Alice desabafa pras amigas:”Eu não aguento mais! Sempre é assim. Nem pergunta se estou bem e já sai fazendo essas perguntas”. Joana, sua melhor amiga, a conforta: “Conversa com ele. Expõe esses teus sentimentos e vê o que ele vai falar”.

Seu bem

  • Se eu faço essas perguntas é porque me importo!

  • Mas você nem questiona se estou bem…

  • Dependendo de onde e com quem você estiver, saberei se está bem ou não.

Quando Alice vai argumentar, é interpelada por Raimundo:

    • A propósito, pra onde você pensa que vai com essa minissaia?

    • Vou almoçar com mamãe. A saia não é curta, vai até o joelho.

    • Pode trocando de roupa! Mulher minha não pisa na rua assim!

A vizinha

Conta o fato anterior a vizinha, sua amiga há dez anos, e ouve:

    • Alice, isso é coisa de homem. Se você o ama, deve respeitar esse jeito do Raimundo e obedecer. Ele só está querendo seu bem.

A praia

      • ESTOU AQUI NA PRAIA HÁ MEIA HORA! CADE VOCÊ?

      • Estou no caminho, meu amor. Tive que pegar outro ônibus, o meu enguiçou.

      • ISSO É MENTIRA! VOCÊ ESTAVA É COM OUTRO!

      • Não fala uma coisa dessas, jamais faria isso com você

      • Quando você chegar aqui, vai aprender a nunca mais fazer isso comigo!

Alice tinha acabado de descer do ônibus, quando sente um aperto no seu bíceps. Era Raimundo:”Anda! Entra no carro!” e a empurra para dentro de seu C3. Bate a porta com força e ao entrar pelo lado do motorista, começa a agredi-la.

A volta

Chegando em casa, abre a porta com todo cuidado possível para não fazer barulho, porém sem sucesso. Sua mãe, d. Cleide, vem recebe-la para dar boa noite e se espanta:

  • Filha, o que houve com você? Por que esse olho machucado e braço roxo?

  • Não foi nada mamãe, foi uma cracuda. Veio pedir dinheiro e eu não dei. Esse Rio de Janeiro tá muito perigoso…

Na faculdade

Não queria ir estudar, por causa dos hematomas, mas como tinha prova de Direito Civil V, colocou um casaco e passou corretivo para esconder o olho roxo, deu um pouco certo, pois ao final da prova, nem Joana, sua melhor amiga e nem Flavia repararam. Apenas, Ana:

  • Alice, minha filha, o que houve com você?

Sem ganhar uma resposta, é repentinamente abraçada e começa a sentir lágrimas caírem em sua saboneteira.

    • Foi o Raimundo! Aquele babaca! – Diz, soluçando.

    • Você já foi na delegacia da mulher, dar queixa dele?

    • Ele me ameaçou, dizendo que se eu denunciasse a agressão, ele me mataria.

    • Mas isso não pode ficar assim! Você precisa fazer algo!

    • Não adianta, não vou na delegacia. A lei Maria da Penha não funciona no Brasil. São recorrentes os casos em que as mulheres registraram diversas ocorrências policiais contra ex parceiros, mas nada é feito. As medidas protetoras, que incluem distância mínima entre agressor e vítima, não funcionam. As casas de acolhimento não existem em número suficiente, e a mulher agredida não tem para onde ir, sendo obrigada a permanecer junto ao agressor ou procurar a família, cujo endereço o parceiro conhece bem.

A perseguição

Alice tomou coragem e terminou por telefone seu namoro com Raimundo. Porém, todo dia ao ir para faculdade, sentia que era observada em todo o percurso e sempre que olhava, via aquele sujeito em seu carro. Repleta de medo e as vezes, traída pelo seu cérebro, começa a ver o agressor em todo lugar e a todo instante. A maioria das vezes, ele realmente estava lá, mas já não sabia diferenciar a realidade da ilusão.

A redenção

Um dia, no jantar com sua mãe, começou a chorar copiosamente e contou o que havia se passado. Sua mãe então propôs: “Vamos mudar de cidade”.

Dois anos haviam se passado, mas de nada adiantou. Alice continuava notando o Raimundo em toda esquina, mas ninguém acreditava nela. Tinha se passado muito tempo e diziam que o agressor nem lembrava mais dela. Porém, Alice não conseguia se esquecer daquela frase dita pelo violentador: “Se você não for minha, não será de mais ninguém.”

Num belo dia, d. Cleide recebe uma ligação:

  • Boa tarde, d. Cleide?

  • Pois não?

  • Venha urgente para a faculdade!

Ao entrar na sala, encontrou no chão a bolsa e o sapato de Alice, uma cadeira caída e sua filha, pendurada, por uma corda, no ventilador. Um bilhete no chão dizia: “Não tenho mania de perseguição!”

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